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 interior esquecido

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MensagemAssunto: interior esquecido   Qua 24 Set - 6:30

interioresquecido.blogspot

Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Aldeia da Luz Cinco anos de solidão e revolta

Na tarde da passada terça-feira, em pleno centro da nova aldeia da Luz, no
concelho alentejano de Mourão, pouco mais se ouvia do que o roncar do motor
de um carro de mercadorias junto à única mercearia do Largo 25 de Abril e as
sonoras batidas do relógio da Igreja do Sagrado Coração. Ao aperceber-se da
presença de forasteiros, um morador que atravessa o largo para se sentar
debaixo da única sombra lança uma resposta curta e sentida que esclarece
todas as dúvidas: "Nestes últimos anos o Alqueva só nos deu desgostos."
Cinco anos depois da primeira mudança de habitantes da velha para a nova
Luz, devido ao enchimento da albufeira do Alqueva, a tristeza continua
vincada nos rostos dos luzenses que viram naquela altura a água do maior
lago artificial da Europa afundar, para sempre, a sua identidade. "A nossa
história, a nossa cultura, a nossa vida, ficaram debaixo de água, a dez
metros de profundidade, e nunca mais virá à tona", frisa um dos moradores
que se encontra no café Central, estabelecimento que agora pertence à última
família a abandonar a aldeia, em Fevereiro de 2003.
Jerónimo Godinho, um reformado de 71 anos, ouve atentamente a conversa entre
o CM e os três homens que petiscam e bebem cervejas ao balcão. Não aguenta
dois minutos sem marcar a sua presença com uma opinião sobre o presente e
futuro da povoação. "É uma aldeia que não é de ninguém e está ao abandono,
isolada de tudo. Fomos enganados com promessas e assim que nos apanharam
aqui fizeram-se de esquecidos."
Mas o povo da Luz não carrega apenas mágoas. Transmite também revolta por
não ter as oportunidades de emprego apregoadas há cinco anos pelo Governo. E
angústia por não conseguirem inverter a tendência de declínio económico e
social da aldeia provocado pela fuga dos mais novos para outras regiões de
Portugal e para o estrangeiro à procura de uma vida melhor.

A família Ramalho - que em Junho de 2002 foi notícia no CM por ter sido a
primeira de 200 a fazer a mudança para a nova aldeia devido aos riscos de
libertação de gases que a trasladação do cemitério poderia causar à saúde do
filho mais novo, submetido meses antes a um transplante de medula -, é um
bom exemplo das dificuldades por que passa a população local. Manuel Ramalho
esteve mais de ano e meio desempregado. Tudo porque as pedreiras de xisto do
concelho, que forneciam matéria-prima para a fábrica de transformação de
rochas ornamentais onde trabalhava, foram submersas. "Com o enchimento do
Alqueva foi-se a fábrica da Portucel e as pedreiras de xisto. Gerou-se, em
poucos meses, uma crise económica na região devido às centenas de pessoas
que ficaram sem os seus postos de trabalho. Depois disso, estive quase dois
anos desempregado. Foi um período muito complicado e pensei em emigrar",
refere este cantoneiro de 42 anos, que agora trabalha a contrato numa
fábrica de transformação de mármores em Reguengos de Monsaraz.

Tal como os outros luzenses da sua geração ou mais novos, este homem, casado
e pai de dois rapazes de 9 e 13 anos, ainda pensou que o Alqueva seria uma
bóia de salvação. Todos tinham esperança de que surgissem investimentos nos
sectores do turismo e agrícola geradores de dezenas de postos de trabalho.
Mas estava enganado. "O que trouxe foi frustração e desespero. A agricultura
ficou na mesma e o turismo nem vê-lo. Sem emprego as pessoas saíram da Luz
para outras paragens", diz, lembrando que aquando da construção da nova
localidade foi prometida a construção de uma marina e parque de merendas.

Sinal da debandada é o número de casas fechadas na aldeia, que chegam a ser
metade do total na rua de Manuel Ramalho. Algumas habitações com três ou
quatro assoalhadas estão à venda por preços que rondam os 100 mil euros.
Outras já têm novo proprietário. "São pessoas do litoral que querem uma casa
para férias", explica o luzense.

ABANDONO

Em 1999, ano em que se iniciou a construção da nova aldeia da Luz, viviam na
freguesia cerca de 400 pessoas. Hoje, segundo os números da junta, residem
apenas 360. "Ainda vai abalar mais gente porque não há perspectivas de
emprego. Nem aqui, nem em todo o concelho de Mourão. Isto é uma miséria",
considera o presidente da Junta de Freguesia da Luz, Francisco Oliveira.

Nos últimos anos a freguesia viu sair oito famílias. Foram quase todos morar
para Reguengos de Monsaraz, a cidade mais próxima da aldeia. "Os jovens
estão a abalar. Muitos ainda aguentaram uns tempos para ver se conseguiam
construir uma casa nos 14 lotes destinados a moradias, que só agora foram
desbloqueados para venda em hasta pública", frisa o autarca. A saída dessas
pessoas, quase todas jovens, está a criar outro problema na freguesia, já
afectada pela falta de médico de família. "No ano lectivo de 2007/08 estamos
na iminência de fechar a escola que tem 12 alunos do 1.º ciclo e o
jardim-de-infância, com seis."

Contactada pelo CM, a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas de
Alqueva (EDIA) diz que o Plano de Ordenamento das Albufeiras de Alqueva e de
Pedrógão cria as áreas e define as regras para o desenvolvimento das
diversas actividades, incluindo a turística. "Cabe à iniciativa privada o
desenvolvimento de projectos. A EDIA não prometeu nenhum dos equipamentos
citados [marina e parque de merendas]", referiu a empresa em comunicado.

REGRESSO

Mas na Luz também há quem regresse definitivamente após décadas de trabalho
nos arredores da capital, principal destino dos luzenses nas últimas quatro
décadas. Joaquim Vitória, cuja família foi a última a abandonar a velha
aldeia, entrou para a reserva da Marinha, onde era sargento-ajudante. Aos 53
anos, deixou o Barreiro para começar uma nova vida na terra da sua mulher,
atrás do balcão do café Central. "Já lá vão sete meses. O amigo que aqui
estava decidiu emigrar e fiquei com o café para estar ocupado."

Também no Largo 25 de Abril, Adelina Carrilho, 50 anos, está à porta da sua
mercearia. "Só há trabalho temporário na agricultura durante quatro ou cinco
meses num ano. As mulheres estão mais em casa. Os homens passam o tempo nos
cafés." Apesar de tudo, tem esperança num futuro melhor e acredita que um
dia "haverá alguém que irá investir na aldeia e criar emprego".

"SENTIMO-NOS DESPEJADOS DESTE LUGAR"

Francisco Oliveira, presidente da Junta de Freguesia da Luz, quase abandonou
o cargo por se sentir impotente para resolver os problemas.

Correio da Manhã - Como vê esta aldeia cinco anos depois?

Francisco Oliveira - Está pior em todos os aspectos. Os compromissos que
fizeram connosco não foram cumpridos e as pessoas estão saturadas de uma
vida instável e angustiadas por não conhecerem o futuro. Sentimo-nos
despejados neste lugar.

- Quais eram esses compromissos?

- Desde a construção do centro artesanal, passando pela marina, adega, posto
de recolha de azeitona e parque de merendas. Nunca mais ninguém ligou à
aldeia. Dentro da povoação há ruas em estado lastimável e ninguém sabe se é
a EDIA ou a Câmara de Mourão que têm responsabilidade por estas situações.

- O que fez para resolver os problemas?

- Estou farto de mendigar, mas como esta é uma freguesia sem lei, a junta
não tem competências para poder actuar no planeamento. Sinto-me impotente
para resolver os problemas. Em 2005, fui ameaçado numa reunião na Câmara de
que pagaria 250 mil euros se mexesse no Largo 25 de Abril. Queria apenas pôr
umas árvores e uns bancos para os velhotes se sentarem. Na altura estive
para fechar a porta da Junta, mas senti que ao fazê-lo estava a ser cobarde
para a população, que não tem culpa das maldades que os governos fizeram à
aldeia.

- O turismo é uma realidade ou uma 'miragem'?

- O Alqueva não deu nada à aldeia, só tirou. Com o consentimento de alguém,
a albufeira matou todo o concelho de Mourão. O que é que nós temos para
oferecer? Nada. Até já fecharam dois cafés porque não há gente para eles. Os
turistas vêm à aldeia para visitar o museu e fazer chichi.

JOVENS DA LUZ 'FOGEM' PARA REGUENGOS

Dulce Mendonça, 24 anos, vai seguir o exemplo de oito jovens famílias que
abandonaram a aldeia da Luz. Depois de casar, a 25 de Agosto, o futuro lar
será em Reguengos de Monsaraz, cidade onde trabalha numa pastelaria. "É
triste mas tem que ser assim. Esperámos muito tempo pelos terrenos na aldeia
da Luz mas como nunca foram disponibilizados decidimos comprar um
apartamento T2 em Reguengos", conta. Dulce sente que os jovens estão a ser
"empurrados para fora da aldeia" devido à falta de trabalho. "Nós vamos
saindo e ficam só cá os velhotes. Se estivesse na velha aldeia ficava com
mais saudades porque foi lá que vivi a minha juventude", remata.

ALQUEVA REGA 400 HECTARES

Os agricultores da aldeia da Luz foram os primeiros no Alentejo a beneficiar
da água da albufeira do Alqueva. O perímetro de rega abrange, actualmente,
330 hectares de olival, 82 de vinha e 10 de ferragial e hortícolas.

José Guerreiro, 49 anos, tem dedicado a sua vida à agricultura. Na velha
aldeia tinha uma exploração pecuária. Agora explora seis hectares de olival
junto à nova aldeia. "Com o meu pai e o meu irmão tratávamos mais de uma
centena de porcos brancos", lembra, enquanto crava a enxada na terra dura
para colocar a protecção para mais uma pequena oliveira.

Com a inundação dos terrenos pela albufeira de Alqueva, a EDIA entregou a
esta família uma área igual junto à nova povoação. "Ficámos com os mesmos 30
hectares. Seis são de olival e os outros 24 estão ainda por cultivar, mas de
certeza que não serão para pecuária. Trabalhar no olival é mais limpo e dá
menos despesas", diz.

José Guerreiro espera agora pelo próximo ano para começar a colher azeitona
do novo olival. "Vou entregá-la na Cooperativa de Mourão", adianta.

HABITANTES DA ALDEIA SEPARADOS POR 96 ANOS

Leonor completa hoje três meses de vida. É a habitante mais nova da aldeia e
vive com os pais numa casa emprestada pelo avô paterno. "Nasceu no Hospital
de Évora. Agora está sozinha comigo porque o pai anda a trabalhar com uma
máquina em Espanha", diz a mãe, Márcia Guerra, 23 anos. O futuro da pequena
Leonor ainda é incerto. A mãe quer continuar a viver na Luz, mas a falta de
trabalho é um entrave ao sonho. "Gostava de trabalhar aqui, mas é muito
difícil porque não há ninguém que invista. Estou também à espera dos
terrenos para construir uma casa na aldeia", refere. A poucos metros da casa
de Leonor, o habitante mais velho da localidade, Manuel Rosa, 96 anos, está
a acabar a refeição no centro de dia. Viúvo desde 1995, Manuel é dos poucos
habitantes a elogiar a aldeia. "A minha casa era velha e não tinha dinheiro
para a arranjar. Deram-me uma nova e já disse que me saiu a sorte grande",
frisou. Manuel da Rosa, que sempre viveu na Luz, diz que aquando da
demolição da velha aldeia a sua "alma ficou mais pobre" mas nunca sentiu
saudade nem dor. "A única coisa que me ficou a doer foram as pernas. De
cabeça estou bom, mas custa a andar", diz, soltando uma gargalhada.

PORMENORES

DEGRADAÇÃO

A população da Luz nunca esteve satisfeita com a qualidade de construção das
novas casas. Fendas nas paredes e azulejos, esgotos estragados, e humidade
são alguns dos problemas detectados. Nestes cinco anos a EDIA tem vindo a
realizar um "diagnóstico" das patologias das construções que "será entregue
ao empreiteiro" para reparação.

MUSEU

O Museu da Luz, inaugurado em Novembro de 2003, mostra nas suas três salas
decoradas a xisto o espólio etnográfico, arqueológico e cultural das gentes
da Luz. Este espaço de memórias contou no primeiro ano com quase duas mil
visitas mensais. Actualmente, o número médio de visitas mensais é de 1100
pessoas.

TRAVESSIA A NADO

As águas da albufeira do Alqueva, entre as margens da aldeia da Luz,
concelho de Mourão, e de Campinho, Reguengos de Monsaraz, vão contar amanhã
com diversas provas de natação. Destaca-se a travessia a nado entre duas
povoações, num total de dois quilómetros. As provas contam com centenas de
participantes de todas as idades. CM

Alexandre M. Silva

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“— Tudo isso está bem dito... mas devemos cultivar o nosso jardim.”
Voltaire em cândido (livro completo em brasileiro)
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